- Eu esperei que ela saísse de perto das amigas
porque tenho medo de falar com mais de uma mulher por vez (sinto-me encurralado).
Quando, finalmente, ela se separou das outras e foi em direção à escada que dá
acesso à pista de dança, eu segurei levemente em seu braço e falei “oi, posso
perguntar seu nome?”. Ela respondeu dizendo seu nome – que eu já esqueci – só
que continuou indo embora. Esquisito. Então eu a segui pelos primeiros degraus
da escada e falei-lhe de novo “oi, eu estava tentando puxar um papinho com
você... Escolhi uma hora ruim?” Ela sorriu e disse “sim”. Foi embora e eu parei
de segui-la. Já estava bom, né, Maurício?
- Claro, você tentou. Era bonita, Maurício?
- Não era feia, não. Mas não fiquei
especialmente atraído, nem nada do tipo. Mas já eram umas três da manhã e eu
ainda não tinha falado com mulher nenhuma, então fui por amor ao jogo.
- E foi só isso?
- Não, depois do primeiro fora, a gente fica
mais confiante. Tentei de novo. Dessa vez era uma morena mais bonita e vestia
uma regatinha bem sexy. Fui lá e
disse “oi, posso perguntar seu nome?”...
Nesse ponto, Maurício me
interrompeu.
- Poxa, mas tem abordar as moças sempre com a
mesma frase?
- Maurício, a segunda moça ouviu o que eu
perguntei para a primeira? – ele fez sinal negativo, mas ainda estava inconformado.
– Então qual é o problema? Além disso, é só a introdução; depois a conversa
segue o rumo que for. Todo mundo sempre se cumprimenta falando “oi” e ninguém fala
em falta de originalidade.
- Tá bom, tá bom... E que rumo tomou?
- Rumo nenhum. Ela falou seu nome, que era
Luisa. Então eu disse que, diferente dela, estava sem uma long neck na mão. Poderíamos ir até o bar, onde daria para conversar
sem gritaria. Ela disse que queria dançar mais um pouco. Eu rebati: “bom,
Luisa, isso pode querer dizer duas coisas: que você quer mesmo dançar mais um
pouco e depois a gente sobe, ou que você quer ficar dançando em paz e ponto”.
Ela riu um pouquinho e reiterou sua intenção de dançar. Eu a cumprimentei de
novo e sai de perto, fazer o quê?
- Mas você tinha que emparedar a moça? Como se
dissesse “se eu vou ficar dançando aqui, é bom que você, desde já, me prometa
uns cafunés para depois”.
- Não fiz isso, Maurício.
- Fez, sim. Ela queria dançar mais um pouco.
Pedisse para dançar ao lado dela; aproveitasse para dizer que ela dança bem,
Maurício.
- Maurício, onde você estava enquanto eu falava
com ela?
- Ah, eu estava ali ao seu lado, mas estava
ocupado.
- Ocupado com nada! Custava dar essas dicas na
hora, infeliz?!...
- Ela nem era tão bonita, vá...
- Ora, você prestou atenção o tempo todo, travou
de medo, não ajudou em nada e ainda me julga depois. Vá à merda, Maurício!
- Vá você, Maurício. Com suas porcarias de
frases feitas; com sua improvisação aleijada.
Então nos calamos. Não
gostamos de brigar, na verdade.
- Maurício?
- O que foi?
- Você está bravo ainda?
- Não, está tudo bem, pode falar.
- Desculpe ter cobrado. Eu sou muito pior do
que você. Além de não falar nada, ainda espero que você elabore prontamente um
soneto às três da manhã para uma desconhecida que nem era tudo isso.
- Esquece, vai...
- Tudo bem, então. E aí? Quando vamos sair de
novo?
- Vai querer que eu volte a tomar uns tragos
antes de falar com a mulherada? É isso?
- Não, não. Pode ficar assim. Se você não bebe,
eu fico acordado até tarde, o que é uma mudança bem-vinda. Ainda é novidade e
eu estranho um pouco, mas estou gostando.
- Sabia que eu também não achei ruim? Verdade
que não pegamos nada, mas foi legal você estar lá até o final.
- É verdade que eu mais atrapalho que ajudo, mas
é só até que a gente pegue ritmo juntos.
- Não tem problema. Mas já que é assim, façamos
o seguinte: bole aí umas falas que encaixem em qualquer momento. Assim, quando
chegar a hora e você ficar catatônico, eu lembro das suas ideias e mando bala.
- Legal! Legal! Deixa eu pensar... Já sei! Fala
assim para ela, ó: “Preciso saber seu nome!”. Ela vai perguntar “por quê?”. Aí,
você diz “porque quando eu disser que conheci a mulher mais bonita do bar, vou
poder dizer seu nome”.
- Meio forçado, Maurício... Mas não se entregue!
O que mais? Vamos lá.
- Tá bom! Tá bom! Que tal assim: “Desculpe
ficar encarando você da forma como fiz até agora, mas seu rosto não facilita
minha educação”. Com sorte ela vai sorrir, e você segue daí. O que acha?
- Já foi melhor do que a primeira. Se não
surgir mais nada até lá, ficamos com essa. Maurício?...
- Oi?
- Você se incomoda em ir dormir mais cedo hoje?
Uns amigos estão chegando e eu estava pensando naquelas latinhas que sobraram
do final de semana.
- Sem problema. Mas não exagere; não quero ficar
hibernando.
- Deixa comigo. Bom descanso, meu amigo.
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