quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Tabuleiro de gente



Poderia qualquer coisa posicionar-se dentre os movimentos de um ponteiro se ainda não havia tempo? Ou em um ponto qualquer, se não havia espaço? Certo é que a resposta nunca pôde ser dada por ninguém, presos que estamos com nossas algemas de fitas métricas e ampulhetas. Somente ele sabe como era, e mais ninguém. Nosso infinitamente solitário e entediado Criador.
Quando se decidiu por fazer o tudo, Deus passou então a compartilhar a experiência de existir em nosso tempo e espaço, mas somente quando lhe apraziam – aquelas novas e extravagantes formas de realidade. Um espetáculo que mereceria ser experimentado em todas as suas sutilezas. O nascimento e morte de estrelas e planetas, o primeiro sopro de vida unicelular, cada giro de cada subpartícula atômica: agora tudo seria testemunhado pelo Senhor, que havia forjado algo com que suavizar seu tédio e minimizar sua solidão. Um espetáculo para aplacar as dores de Deus.
Tamanha diligência não pode ser documentada senão por uma fração infinitesimal a ser escolhida, razão pela qual ater-nos-emos ao episódio que interpretamos como uma imprevista falta de paciência de Sua parte.
Ele viu o homem se levantar dentre os outros seres e se tornar maravilha e terror. Presenciou a violação da carne em todas as suas formas e ardis inescrupulosos extirparem conquistas e aspirações. Não Lhe escapou, tampouco, que as mesmas mãos engendravam plantações, postergavam a morte e criavam arte – nossa manifestação que mais O agrada. Pois uma das criações que sempre O intrigaram foi a invenção do diabo, em especial a mitologia acerca do demônio cristão. Pense-se num anjo que, tomado por inveja e arrogância, amotina-se contra seu Mestre, é derrotado e condenado à maior das quedas. Daí não descansa enquanto não arrebanha todas as almas que pode, para então enfrentar seu Pai numa segunda batalha de fracasso também anunciado.
Deus, que tudo podia, era cativado pela história da luta de um anjo repleto de limitações e que, ainda assim, não desistiria de seus objetivos, mesmo que isso representasse sua aniquilação. Tornara-se um admirador da figura do diabo.
Progressivamente desinteressado com as idas e vindas do homem, ciente do quanto são capazes de evoluir nos meios sem se alterarem  em seus valores, o Criador começou a se cansar daquele grão de areia populado de gente inquieta, e Seu aborrecimento trouxe uma mudança surpreendente. Pela primeira vez desde que, num ímpeto de enfado, permitiu que o tudo se criasse, Ele interferiria em rumos alheios. E decidiu-se a fazê-lo para tornar real aquele que mais o divertia em seus pensamentos. Haveria um diabo.
A maneira como esse nascimento ocorreria se tornou o centro de Suas atenções. Talvez procurasse um candidato dentre as piores pessoas de todos os tempos passados e futuros, ou fizesse nascer um anjo para recriar a saga bíblica à risca. Também pensava na extensão do mal que lhe seria permitido causar. Se esse diabo procuraria o mal alheio como um fim em si mesmo, para assim ofender Deus com mais pungência, ou se procuraria seu próprio benefício, atingindo os outros somente por reflexo. O desejo de intromissão repentino, todas aquelas maquinações sobre a criação de um adversário – um joguete, mas ainda assim um adversário, tudo era muito revigorante para Deus, que, enfim, decidiu-se.
O diabo não seria criado; seria aberta a oportunidade para sete candidatos cujos perfis tendessem, cada um deles, para uma das seguintes vertentes: um amigo da fé, um incrédulo, uma prostituta, um sacerdote, um traidor, um político e, por fim, um amálgama, pessoa que abarcasse em si todas aquelas prevalências de forma híbrida – vale dizer, alguém que melhor representasse todas as gentes. Escolhidos os aspirantes, eles teriam um ano para refletir e agir da forma como melhor entendessem para atrair os olhares do único julgador, quando deveriam então responder a duas perguntas: “ainda deseja ser o diabo?” e “do que é capaz para receber esse encargo?”. Selecionar os candidatos era o próximo passo antes que se iniciasse um ano de doce contemplação e entretenimento.
Não é demorada a avaliação de caráter pelo Criador, que conhece de antemão o que fez e pensou cada candidato desde sua concepção, de forma a saber se seus candidatos trazem em si os requisitos para a participação no certame mais peculiar que já se viu. Era necessário que eles tivessem algum grau de crença em Deus – mesmo o incrédulo, ou não emprestariam ouvidos às explicações do Senhor, confundindo-O com um surto de loucura ou – ironia – com as tentações do diabo. Também deveriam ter certa propensão ao mal, afinal, de outra forma, em nada lhes atrairia a proposta. Pois o Criador já tinha – sempre teve – seus candidatos. Quanto a eles, saberiam apenas as regras, e também que havia outros seis com o mesmo desafio.
Sem demora a lista foi completada por pessoas nascidas de todas as partes e momentos, mas um mínimo de informações sobre eles é necessário. O amigo da fé era um pai de família que frequentava sua igreja com crença genuína, mas que, em raras oportunidades, havia se deliciado com covardes episódios em orfanatos corruptos. O incrédulo se conduzia conforme os costumes do povoado em que vivia, pois lhe fugia a abundância de referências religiosas ali despistadas. Era-lhe gratificante enterrar vivos pequenos animais, principalmente pela sensação de impunidade.
A prostituta via na alegria alheia uma provocação. Acostumada a ter clientes embriagados, passou a prendê-los e chamar suas famílias para buscá-los em escândalo. Não fez mais do que isso por falta de coragem, mas lhe sobravam intenções. Ao final acabou morta por um desses clientes, sendo a única dentre os candidatos a ter respondido por seus atos, episódio apagado por Deus para que pudesse participar com os outros seis. O sacerdote era dotado de fé ambígua e parcial; seus sermões, plenos de mensagens de resignação e desesperança. Aos ouvidos de seus fiéis miseráveis, ávidos pela mensagem de que encontrariam na outra vida o conforto que nesta lhes era negado, suas palavras eram sementes de desespero.
O traidor escrevia em um jornal de grande circulação onde atuava com impressionante desenvoltura e carisma, mas fazia-o atraiçoando suas convicções mais basilares, não se negando somente por ambição e preguiça. Com efeito, sua pena era uma arma que reverberava com estrondo, vez por outra envolvendo sangue inocente. O político agia como gostaria que o vissem. Não era corrupto pois detestava a imagem que a sociedade lhe teria se descoberto, mas o pouco que trabalhava por dia representava o muito que sua comunidade deixava de receber, e ele, mesmo tendo contabilizado as mazelas de que poderia poupar seu povo, deitava-se mais cedo todos os dias. Por fim, o amálgama, o mais adequado preposto dos povos. Nada se precisa dizer sobre ele; a humanidade bem sabe como é. Como Deus esperava, por mais atônitos ou céticos à primeira vista, todos ouviram. E então aquiesceram. O ano da competição teria início no dia seguinte.
Durante o passar de todo aquele ano, nem por uma vez Deus deixou de existir em nosso tempo e espaço, tão entretido estava com as reflexões e atos dos competidores. Abordagens foram planejadas das formas mais diversas: houve quem dedicou todo o seu tempo à profunda tortura de uma só pessoa, e também quem tentou arruinar o maior número possível de corpos com um só movimento. Não faltou quem visse com empáfia o mero desmembrar e matar, procurando viciar a mente – com sorte, também a alma? – de quem lhes desse ouvidos. E houve quem não fez nada. A seu termo, encerrou-se a fase de provas e todos foram confrontados perante o Senhor.
“A primeira das perguntas eu faço a todos. Ainda desejam ser o diabo?”, afirmou o Criador diante dos sete reunidos pela primeira vez. Depois de um breve silêncio, a prostituta, seguida pelo traidor, o amigo da fé e o incrédulo, manifestaram-se timidamente com suas desistências e, no mesmo instante, voltaram a viver no segundo anterior ao que deus lhes havia aparecido com a proposta. Se Deus se decepcionou, não se sabe. Logo repetiu a mesma pergunta e ouviu “sim” do sacerdote, do político e do amálgama. Fez então a segunda: “do que é capaz para receber esse encargo?”.
O amálgama, em quem a bondade e maldade não começam nem terminam de maneira clara, foi o primeiro a ter sobre si o olhar do Pai, o que fez os outros calarem. Ele respondeu:
- Por cada momento, durante todo esse ano, o que fiz foi pensar. Pensar sobre a forma mais extravagante de infligir o mal mais severo, em toda a extensão que me fosse concebível. Mas, para alcançar tanto, era necessária uma apurada escolha de vítima, pois a dor certa, ainda que imposta pelo algoz competente, só será devastadora na medida em que se almeja se a vítima tiver muito a perder. Assim, afirmo: eu sei, e por isso ambos sabemos, de tudo o que perco e abandono com esse encargo – toda minha humanidade; reconheço enfim o tipo do amor que um pai tem por seu filho para fazer-lhe tal convite; antecipo os sentimentos que os anos sem-conta me trarão, bem como minha incapacidade em lidar com eles. Pai, eu sei da solidão, e ainda assim aceito o encargo. Do que sou capaz para receber esse encargo? Sou capaz de entendê-lo e aceitá-lo.
O sacerdote e o político sequer chegaram a ser ouvidos.

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