Havia terminado de obrigar
minha filha mais velha a almoçar numa negociação assemelhada aos tratados
internacionais, com a diferença de que ela abre mão de alíquotas favoráveis em
nome de um chocolatinho. Então, cutucando um dos bolsos da calça, senti um volume
e o puxei já com o rosto feito numa careta, pois bastou o contato com o papel para
que eu me lembrasse de ter colocado aquela conta no bolso justamente para que não
esquecesse de pagá-la.
Fui resignado enfrentar a fila
do banco, ao menos acompanhado de uma revista para minimizar o tédio, a qual,
com um pouco mais de auto-crítica, traria como tírulo “Razoável”, e não
“Superinteressante”. Aquela edição era bestamente iconoclasta, tentando me convencer
de que posso combater ressaca com sanduíche de bacon, quando o senhor que
estava na minha frente ma chamou a atenção. “Pode passar, estou esperando uma
pessoa”, ele disse, solícito. Eu agradeci, passei, paguei os malditos juros e
voltei para a minha vidinha.
Não se passaram muitos dias, havia
combinado com a minha mãe de almoçar em sua casa no domingo, quando ela também
receberia alguns familiares e amigos, e decidi ir de metrô para que minha
filha, que caminha no permanente limiar de uma greve de fome, conhecesse o
“trem que anda embaixo da terra” – ideia que ela adorou desde a descrição, na
noite anterior. O importante é que havia uma fila para a compra dos bilhetes e,
depois que me somei a ela, quando já me aproximava do guichê, vi que lá também
estava o senhor da fila do banco, que, não me reconhecendo, disse-me novamente,
e com o mesmo sorriso amistoso: “pode passar, estou esperando uma pessoa”.
Coincidências existem, é
claro, mas nem assim pude evitar a montagem de alguns roteiros melancólicos com
aquele velhinho. Ora ele era solidão, esperando das filas o calor que conversas
amenas dificilmente trazem; ora ele era devaneio, esperando por uma pessoa que criara,
ou até mesmo esperando por si mesmo; ora ele era a má esperança, ansiosa por um
futuro improvável enquanto lhe escapam oportunidades mais palpáveis. O velhinho
havia ser tornado, enfim, uma coleção de males que eu provavelmente temo, seria
justo arriscar.
Minha filha adorou o metrô e
chegamos na casa da minha mãe, onde ela se sente instantaneamente feliz, pois os
bifes dão lugar a salsichas; frutas, aos sorvetes. Correu pela casa até
encontrar com os dois primos, tornando-se então autossuficientes os três, ao
menos até que alguém volte com um galo ou joelho ralado. Depois de cumprimentar
o pessoal que estava no jardim, fui até a sala dos fundos para descansar um
pouco, onde os mais quietos assistiam à televisão, lugar em que meus
cumprimentos foram recebidos com monossílabas desatentas. Estava passando um daqueles
programas de auditório que bastaria isolado para justificar a eutanásia, mas os
olhares estavam pregados na tela com toda a atenção. Ninguém sorria, comentava
ou reclamava; rostos de uma placidez patológica. Levantei de lá assim que notei
essa letargia, como se fosse contagiosa.
Então fui conversar com os
mais animados, que, já reunidos na grande mesa armada no jardim, conversavam
sobre o exagero dos gastos da vindoura Copa do Mundo, que, saliente-se,
receberá de mim a mesma atenção que dispenso ao campeonato estadual de botcha –
caso exista. De novo a impressão passada pelos espectadores da televisão, pois
uma parte razoável dos convivas não disputava a atenção dos outros para também
se indignar com os clichês sobre corrupção e má administração pública. Ficavam
olhando as telinhas de seus smartphones
com aquela mesma estranha mansidão, lembrando o Jack Nicholson no final de “O Estranho
no Ninho” – ou a esposa do David Beckham, em qualquer situação.
O velhinho, eterno último da
fila, pode ser fruto da minha imaginação. É mesmo possível que, por duas vezes,
a pessoa esperada tenha chegado depois da minha saída cheia de confabulações
ociosas, e que ele agora esteja muito bem ao seu lado. Pode ser também que ele
tenha uma vida rasa, procurando preenchê-la com o que lhe permitem seus meios.
Mas vivo ele estava, e seus tropeços, se o forem, se davam com gente. Sempre com
gente.
Continue, pois são ótimos seus textos!! E este, reflexivo apesar do humor! Parabéns!
ResponderExcluirObrigado, Bia! Volte sempre. Bjs!
ResponderExcluir