terça-feira, 18 de março de 2014

Tempos de Fé



Eu tinha cinco anos. Ensinaram-me que não devia correr no chão encerado; que precisava escovar os dentes antes de dormir; proibiram-me de rir dos defeitos ou particularidades das outras crianças na escola. Era tudo verdade. As corridas na sala encerada renderam-me galos e escoriações diversas; fui ao dentista vezes bastantes para dar por justificada a fobia do zunido da broca; fiquei, enfim, cabisbaixo como um ultrarromântico quando a menininha dona dos meus primeiros suspiros chamou-me de quatro olhos. Consolidava-se a certeza inconfessável de que meus pais eram sábios a serem seguidos, afinal já estavam neste mundo há uma eternidade e eu invariavelmente pagava o preço por desafiar suas asseverações. Foi nesse período, o da apresentação das verdades inabaláveis e dolorosamente empíricas, que me apresentaram a Deus, um homem, ao mesmo tempo austero e terno, que morava no céu, via tudo que eu fazia e me amava muito, apesar de nunca falar comigo.

Eu tinha quinze anos. Não só já havia concluído que fui precipitado quanto à sabedoria plena dos meus pais, como os tinha por pessoas sem tato cujas palavras soavam embaraçosas com frequência. No mais, gostava de “Che” Guevara porque pegava mal não gostar e, incongruente como nunca mais consegui ser, aceitava tudo com uma demão de questionamento e rebeldia por cima – e Deus não ficou de fora. A morte não me era mais estranha, já tendo abarcado desde animais domésticos queridos a parentes distantes. A primeira comunhão era uma memória relativamente recente e as poucas missas compulsoriamente assistidas cumpriam seu papel de me afastar ainda mais da religião.

Eu tinha vinte e dois anos. Apresentado aos botecos e conversas que somente lá se engendram, nunca mais fui embora. Não transei nem metade do que suplicavam meus hormônios e a iminência de um namoro sério me sussurrava que talvez fosse tarde demais para viabilizar essas urgências. Meu corpo era forte e eu não convivia com ninguém que não fosse da minha geração. A morte, talvez por isso, não era assunto e, sem medo dela, Deus resumiu-se numa única – porém sincera – oração antes de dormir.

Eu tinha vinte e oito anos. Já conseguia dizer que não era cristão sem receio de que um raio me acertasse a cabeça, aproveitando também para rachar o chão e me jogar no mais profundo círculo do inferno, onde Virgílio apontaria para mim e mostraria a Dante o que acontece com quem se mete a besta. Continuei acreditando em Deus (algum Deus) simplesmente porque não conseguia conceber uma criação sem criador, e o fato de dividir esse mistério com o resto do mundo tornava o insolúvel aceitável.

Eu tinha trinta anos. Quem diz que a natureza é perfeita só pode ser ingênuo ou desatento. Parando em um só exemplo, as salas de UTI pré-natal desmentem com eloquência essa fantasia. O mundo é um lugar onde o mal impune convive com o abnegado altruísmo, e muitas vezes convivem no mesmo agente; há quem pague preços altíssimos por faltas que desconhecem; há quem passeie incólume pelas torpezas a que dá causa. Somos, enfim, um barco perdido ao sabor de incerta corrente. A gratuidade parece ser o valor máximo no qual tudo se baseia, só nos restando torcer para não sermos apresentados a injustiças abissais como doenças neurológicas. Reconheci-me como ateu.

Tenho trinta e seis anos e ainda sou devoto da gratuidade. O livro “Quando Coisas Ruins Acontecem Com As Pessoas Boas” enche meu realismo (pessimismo?) de casos e alicerces, desde que eu omita a atraente conclusão do autor desse livro, um rabino bastante esclarecido para um sacerdote. Já não caibo, contudo, no ateísmo. A presença dos meus filhos esmagou a rigidez do meu ceticismo (conquanto persista), fazendo-me reconhecer um sentimento do qual não consigo – e já nem quero – desvencilhar-me. Uma profunda gratidão pelo que eu tenho, mesmo sem saber a quem devo ser grato, nem entender porque filhos perfeitos não são um sonho alcançável por qualquer um que os pretenda ter.

Para o raciocínio e segue a intuição. Se é assim, há alguém sobre quem não entendo nada, mas que existe. Sou grato a “sabe Deus quem”, mas sou grato.

2 comentários:

  1. Crenças são o que são. Mais que isso, do que delas fazemos serem. Para cada qual, uma existirá, diferentemente de outra. O conceito de normose é por vezes tomado como algo certeiro; nos esquecemos que o que é normal para a aranha é o caos para a mosca...
    Gostei da reflexão. Abs.

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    1. Obrigado por sua atenção, Sussufriendz! E obrigado também por me apresentar à normose. Muito interessante o conceito. Apareça!

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