“Tá tudo bem, tchau...”
e a ligação acabou. Foi assim que eu soube que não estava tudo bem. Toda
relação tem suas peculiaridades, e na minha há uma regra sutil em que, se na
despedida não se manda um beijinho para selar a conversa com ternura, então é
porque alguma amargura se espreitou e ainda encontra pouso confortável dentre
nossas muitas inquietações. Essa angústia teria de ser decifrada mais tarde,
pois já era hora de levarmos minha sobrinha para a festa de aniversário de um
coleguinha de escola dela.
Toda relação amorosa é pródiga
desses silêncios que se fazem evidentes como berros histéricos. Eu estava
orgulhoso por ter descido pelo tobogã do buffet
infantil sem deixar cair nada da minha cerveja quando um amigo pediu que o
acompanhasse até a entrada do lugar para que conversássemos enquanto ele fumaria;
os diálogos logo tenderam para mais um exemplo do ponto de vista que vou
defender adiante.
- Agora minha mulher não diz mais “não”
quando eu vou atrás dela.
- O quê?! Parabéns, rapaz! O grupo dos
casados sem vida sexual esporádica (que é estatisticamente irrelevante) ganhou
um membro! A que se deve o milagre?
- Você presumiu bastante coisa. Eu só
disse que ela não nega mais.
- Então?...
- Então, que agora ela já entra no
quarto à noite toda apressada, queixando-se do quanto está cansada, de como
tudo é tão corrido e do quanto precisa dormir. Quando sai do banheiro de dentes
escovados e já trocada, está com um pijama pesadão digno de governanta inglesa.
Se antes as investidas eram negadas, agora eu nem tenho espaço para tentar...
- Putz... – respondi com o que sobrou da
minha sagacidade, esvaziada frente a tanta maquiavelice.
- Putz. – ele devolveu. E uma quietude conformada
nos envolveu.
Acredito que os
silêncios dos casais descartam conversas tão aborrecidas quanto emergenciais,
onde ambos poderiam ao menos tentar abrir suas fragilidades e assim iniciar
algum entendimento. Tais conversas, ao contrário daqueles tóxicos hiatos, seriam
feitas de palavras e olhos que se olham, e é aconselhável enxergar além da
aparente redundância, pois um casal que se fita também se compadece e se
acumplicia, fazendo das palavras também temperos, rodeios e eufemismos, oportuníssimos
amaciadores de momentos espinhosos. Tudo perdido por silêncios que não se
comovem com nada, gabando-se de sua compreensão imediata, conquanto impassível.
Ah, mas são sinceros.
A sinceridade é,
talvez, a mais superestimada dentre as virtudes, e triunfa mesmo nas mensagens
não ditas – talvez principalmente entre elas –; comumente sua qualidade de honesta
e espontânea camufla falta de tato, podendo chegar a crueldades de difícil alívio.
Ou estou certo, ou nunca se viu quem, após magoar o outro com seu ponto de
vista sem qualquer lapidação, afirma soberbo “falei mesmo, não sou falso” ou
“ah, eu sou assim, sou sincero”. Pode ser, mas também é mal educado e sem
consideração.
Lembram-se dos “putz”? A
mencionada “quietude conformada” que os seguiu não durou o suficiente para que
eu concluísse o que acabei de desabafar, e assim meu amigo continuou falando sem
ter quem lhe ouvisse (reconheço com algum embaraço). Da forma como pude, fiz o
primeiro assunto voltar e atualizei Marcos, meu negligenciado amigo, sobre o
que me assombrava.
- Maurício, acho que os casais acabam
virando rivais em algum grau, sabia? Algum malfeito meu é respondido com uma
desatenção dela; uma indelicadeza dela é retrucada com uma grosseria minha... E
a engrenagem vai ganhando certeza e velocidade. Nesse panorama é que as
conversas esclarecedoras, ao invés de encontrar alguma permeabilidade, se
chocam em muralhas de defensividade. Mágoas são esquecidas só na aparência; mais
fazem é se acumularem até o ponto em que o toque mais inocente pode repercutir
de forma imprevisivelmente perturbadora. Os silêncios de que você fala são
exemplos disso.
- Conversar abertamente seria muito
melhor, concorda?
- Olhando cada episódio isolado, sem
dúvida. Só que o sujeito que levanta a bandeira da paz agora também é acusado
de declarar guerra em primeiro lugar. Aí essa boa vontade toda, aos olhos da
mulher, não vai passar de remorso mal moído...
- Se os silêncios são herméticos e frios,
e as conversas já começam viciadas por antigas farpas, então está todo mundo lascado?!
- Está.
- Putz...
- Putz.
- E daqui vamos aonde? Nenhuma hipótese
para pôr à prova? Testar em campo?
- Essa maldita preguiça que nos faz tratar
cada vez pior a pessoa que amamos é um dado científico: amor e gentileza são
inversamente proporcionais. Num mundo perfeito, ninguém mudaria seus tratos com
a convivência. Homens e mulheres, perturbados com “sabe-se-lá-o-quê”, não
descontariam o peso do mundo na única pessoa que poderia aliviá-los. Como no início
dos relacionamentos, com a incerteza inquietante sobre a conquista recente – os
mistérios que ainda não se dissiparam –, seríamos namorados para sempre. Aí a
receita da felicidade ficaria simples: transaríamos até o universo se desfazer
em entropia e receberíamos os cavaleiros do apocalipse com uma puta de uma
risada.
- Bonito... Mas lá em casa não vai dar
quórum, não.
- Nem na minha.
- Putz...
- Putz.
- Se bem que sugestão dada no futuro do
pretérito não transmite muito otimismo mesmo.
- Releve, meu amigo. Lá em casa não está
tudo bem já faz algum tempo; devo estar chato pacas...
Estava um pouco chato e
professoral mesmo, mas ninguém é obrigado a acordar carismático e modesto todo
dia. Mais do que isso, não posso me esquecer de procurá-lo depois para que ele
desafogue as razões do seu derrotismo; amigo é para isso, afinal.
Um fio d’água na
sarjeta levou a segunda bituca para o esgoto, e foi o
sinal para que voltássemos para a festinha, que correu sem incidentes até o
bolo de chocolate, brigadeiros e despedidas. O bom é que a molecada brincou à
exaustão e minha sobrinha dormiu no carro enquanto eu voltava dirigindo com o
carro em silêncio. A pequena iria passar a noite lá em casa.
Enfim chegamos.
Enquanto eu ia estacionando o carro, pensava na maneira com que começaria a conversa
conciliatória, mesmo que sequer soubesse o deslize de que seria acusado; tudo para
que houvesse beijinho na próxima despedida telefônica. Não tive a oportunidade.
No instante em que eu desliguei o carro, ela pousou suas mãos na minha coxa
direita, debruçando-se sobre mim e me sussurrando nos ouvidos “estou te
esperando no quarto sem toda essa roupa”.
Assim?! Sem conciliações
rasas nem promessas inverossímeis cobertas de boa intenção?!
Talvez eu conheça meus
problemas tão bem quanto sou capaz de ler as reações dos outros. Não parece
muito, e, de fato, eu estaria mais preocupado se minha atenção não estivesse voltada
em levar uma criança no colo com a agilidade e expertise de um garçom de
rodízio.
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