O poema não tinha título e
prevalecia nele o tom de rebeldia generalizada que só se permite aos mais
jovens, como eu era quando o escrevi. Era o tipo de texto para ser mantido
íntimo; tocava-me por ser seu autor, remetendo-me de imediato aos sentimentos de
sua elaboração. Fora desse subjetivismo, nada havia nele que pudesse atrair a
atenção dos outros; eu mesmo não lhe atribuía nenhuma qualidade literária. Como
um velho filme ruim assistido numa hora boa, cuja memória conforma pelo
contexto, e não pelas intenções do diretor. Por isso seu arquivamento.
Tenho um pequeno círculo de
amigos que se encontra com frequência. Seja para evitar gastos ou para fugir da
agitação, às vezes deixamos de sair para nos reunirmos na casa de um de nós. Na
última vez foi na minha casa, e como não são meros conhecidos cuja chegada peça
cuidados especiais, não me dei ao trabalho de arrumar a casa para recebê-los,
deixando alguns papeis em cima da mesa de jantar – dentre eles, o poema
mencionado, retirado provisoriamente de seu arquivo para uma nostálgica
repassada.
Foi assim que o texto deixou
seu anonimato planejado. Lido em voz alta por um dos presentes, atraiu a
atenção de um dos convivas, que trabalhava como relações públicas de um
aspirante a vereador de São Paulo. Todos os amigos, de modo geral, elogiaram meus
versos, mas essa reação mais me constrangeu do que lisonjeou – talvez pela
pouca qualidade que eu lhe atribuía, talvez pela invasão de intimidade que sua
leitura me passava. Esse assessor de político pediu que lhe entregasse o texto,
caso não pretendesse fazer melhor uso dele. Como não encontrei desculpa boa o
suficiente para deixar de fazê-lo, entreguei-lhe o poema com embaraço e o assunto
foi abandonado, voltando a discussão para a recente orientação criativa de
Woody Allen, que agora passou a filmar agradáveis cartões postais.
O assunto voltou algumas
semanas mais tarde, quando esse mesmo assessor me encaminhou uma mensagem
eletrônica com um modelo de panfleto. Era colorido pelos tons do partido de seu
empregador, que posava de terno bem alinhado e rosto austero. Ao seu lado, no
lugar das promessas vagas que tanto cativam elegíveis e eleitores, estava o meu
poema, impresso em letras feias e chamativas:
Eu, que falo vazio e sem pausa, por que não canto?
Eu, que ando em tropeços sem rumo, por que
não danço?
Eu, que sem rebeldia bato e mordo, por que
não reivindico?
Eu, que morro quieto a dois passos do
início, por que não aceito?
De forma imediata e irremediável, desapareceram os
sentimentos que a leitura dessas quatro linhas me transmitiam sempre que as
visitava. Agora era a mais incongruente tentativa de angariar votos em que eu
já havia pousado a vista. O olhar austero do político agora já não passava
seriedade e compromisso – era um desafio pessoal. Sabia que havia me tomado
mais do que palavras, mas as memórias que a partir delas se desvendavam num
sussurro que só a mim alcançava. Sequer o desabafo de rasgar aquele panfleto eu
teria, pois apresentado numa tela indiferente que aceita tudo.
Não respondi àquela mensagem porque, confesso, tenho certa aversão
a qualquer tipo de confronto, mesmo que o preço dessa inércia seja um gelo no
estômago que só se dissolva após dias de incômodo. Meu amigo interpretou meu
silêncio como quis e seguiu na esperança de cativar o eleitorado com um poema absolutamente
desconectado de promessas, propostas ou qualquer outra coisa que pudesse valer
a pena ser dita pelo aspirante a parlamentar. Imagine-se a falta de palavras
que enfrentava, para concordar com essa tentativa de se fazer notar por um
texto que não o representava de nenhuma forma! Pensei que talvez estivessem
tentando vendê-lo como alguém letrado e sensível, mas abandonei essas reflexões.
Encerrei o assunto.
Mais tempo passou e, com ele, as eleições. Dei-me ao
trabalho de verificar se o candidato impulsionado por um desabafo adolescente
havia alcançado seu objetivo e confirmei que não. Estranha sensação. Eu, que
havia ficado tão incomodado pelo fato de ver minha pequena obra desvirtuada,
agora estava novamente incomodado por seus versos não terem comovido o povo, ainda
que isso não fizesse sentido. Começo a notar um padrão no qual estou sempre
reclamando, e isso não deve ser produtivo...
Agora tomo um papel e uma caneta na mão. Não vou ao computador
porque quero o alívio físico de rasgar tudo que me desagrade. O que eu sinto não
se aproxima muito da antiga rebeldia genérica, mas a vontade de me queixar até
cansar os ossos é quase palpável. Dessa vez, no entanto, ninguém irá pousar os
olhos sobre ele. Ninguém. E, caso eu mude de ideia sobre essa falta de publicidade,
todos saberão que é meu. Meu.
Como dizia Carlos Drummond de Andrade: "Escritor: não somente uma certa maneira especial de ver as coisas, senão também uma impossibilidade de as ver de qualquer outra maneira".
ResponderExcluirPertinente como sempre. E esse comentário mereceria uma crônica só para ele, como sempre.
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