Eu cheguei a começar um
discurso moralizador, mas me calaram a boca com um “shhhh!” em uníssono, então
eu atendi, resumindo meu protesto a uma cara fechada e a não fazer parte daquela
invasão de privacidade. Chamei uns amigos para dividir umas poucas empanadas e
umas muitas cervejas lá em casa (no caso, meu novo apartamento); eles vieram e,
como de costume, ficamos à mesa da sala de jantar falando bobagem ao som de
algum álbum trazido pelo Marcio, meu amigo do peito e também o mais diligente
garimpeiro de música que eu já conheci, capaz de discursar com irritante fluência
sobre rock, jazz e música erudita. É um sujeito que está sempre ocupado.
Pudera.
Pois bem. Naquela noite,
apesar de produzirmos proficuamente nosso próprio barulho, entre risadas, conversas
cruzadas e análises pormenorizadas da vida alheia, o casal que vivia no
apartamento ao lado conseguiu sobrepujar nossa alegre balbúrdia com sua ríspida
gritaria. Não sabia o casal que sua briga íntima tinha plateia e, após alguns
minutos, até torcida organizada. Somada a finura das minhas paredes ao
poder vocal dos combatentes contíguos e ouvimos diálogos com nitidez
surpreendente. Ouviam-se os berros, mas também os choramingos; todas as nuances
de raiva, frustração e tristeza que absolutamente não eram problema nosso.
Fizeram-me baixar o som, e bem
quando estava tocando Fly With The Wind,
minha música preferida do pianista McCoy Tyner, que esteve recentemente no
Brasil e eu perdi. As empanadas estavam esfriando; e algumas eram de quatro
queijos, que ficam especialmente ruins se não recebem atenção assim que prontas.
Nada disso era par para o Big Brother amador
com que meus convidados se esbaldavam, e ficaram nisso até o final, que não foi
bem um final. O casal já estava começando a se apaziguar, e foi continuar o
papo da reconciliação em outro cômodo. Esquentamos a comida e a música voltou.
Menos mal.
Mas não estou sendo honesto. É
verdade que eu fui contra ficar naquela intromissão toda, mas, voto vencido
como fui, a bisbilhotice continuou e eu confesso que ouvi a discussão do casal tanto
quanto qualquer outra pessoa dali. Então eu sabia que a moça estava tendo um
ataque de ciúmes, e o sujeito, ao invés de negar, como todo mundo faz, confirmava
suas suspeitas e a desafiava a deixá-lo enquanto enumerava todas as suas
fraquezas e dizia o quanto sua vida seria pior se saísse de debaixo de suas
asas. A pobre moça esbravejou bastante, mas não foi embora; deu razão a ele,
portanto, e então o assunto nos fugiu para desânimo geral daqueles que preferiam
os temperos do infortúnio alheio aos de uma refeição entre amigos. Não ficou
só nisso.
Quando eu disse que as paredes
eram finas, não exagerei. Com o volume das brigas, que se mostraram constantes,
eu pude saber muitas coisas do casal com o passar dos dias e semanas: ela se
chamava Ana e ele, Alfredo; ele era um funcionário público de cargo medíocre,
mas gabava-se de sua estabilidade e de sua qualidade de provedor; ela era
tradutora de inglês, e seus talentos não eram bem pagos o suficiente para que
fosse independente daquele que a subjulgava. Inicialmente fui da opinião de que
ambos eram adultos e toda relação é feita de escolhas diárias. Se ela não ia
embora, era porque topava. “Não há prejuízo sem prejudicado”, dizia um amigo
meio burro, mas nisso ele estava certo. Ela que se virasse com a vida que
escolheu, ou se livrasse do que a oprimia. Quer ficar? Aguente.
A rigidez da minha opinião não
durou nada. Ele era arrogante, para mim um dos defeitos mais difíceis de
relevar, e se expressava com pobreza irritante. Sempre as mesmas frases feitas
para machucá-la; de tão repetidas, deviam machucá-la, à essa altura, não mais
pela maldade que carregavam, mas pela constatação da fraqueza de espírito e
vocabulário do homem que, enfim, havia escolhido como seu.
Com pena dela e antipatia
dele, resolvi intervir da forma menos invasiva possível, e não foi fácil
encontrar esse meio, afinal, tudo que eu sabia dela era fruto de espionagem, e
eu não estava embarcando nessa jornada para passar vergonha com a confissão da minha
indiscrição. Um dia, vi seu nome no elevador, num anúncio dos novos
conselheiros do condomínio, e soube que as reuniões às quais eu nunca compareceria
poderiam ser um bom caminho. Foram mesmo.
Depois de me enturmar com o
síndico e seus conselheiros, tornei-me mais próximo de Ana, e comecei a lhe pedir
que me fizesse algumas traduções de contratos que jamais teriam qualquer
utilidade, e paguei por eles (era parte do plano). Sabendo-me pão duro por influência do meu pai,
cheguei a matutar sobre o porquê do meu interesse em ajudar, mas não ficou
claro. Interessado nela eu não estava; era agradável e simpática, mas feia, e
eu sou tão frívolo quanto qualquer outro homem. Então não seria para roubá-la
para mim, mas para si mesma. No mesmo dia em que ela me devolveu o terceiro
documento inutilmente traduzido, ela e Alfredo tiveram uma briga feia, com
direito a todas as frases de sempre, sobre ela não ser atraente para outros
homens, sobre sua carreira ser uma piada, sobre a sorte de eles não terem
filhos. Minutos ou horas depois, como sempre, ele voltava manso, dizia que
exagerou e, imagino, ela terminava pegando-lhe uma cerveja na geladeira ou
fazendo-lhe uma massagem nos pés, feliz com o final do embate, mesmo certa de
que o próximo não tardaria.
Havia me lembrado de um trecho de Amadeus, aquele
filme sobre Mozart, quando Salieri fica surpreso com a beleza de uma parte de
uma ópera em que a esposa de um sujeito se disfarça de empregada e,
irreconhecível para o marido, é tratada por ele com carinho pela primeira vez.
Com essa informação na cabeça, fui para o Google tentar descobrir o nome da
obra. O plano seria pedir que traduzisse essa parte para mim como forma de
fazê-la ao menos começar a enxergar o peso de suas escolhas, mas não adiantou.
Talvez eu não tenha feito as perguntas certas, mas não descobri o nome da
ópera. Ao menos lembrei que o U2 também havia revisitado esse tema triste na
música Stay. Pedi então uma tradução
dessa música e me adiantei dizendo que havia encontrado traduções na internet,
mas que eram todas muito literais e mal feitas. Ela topou; restaria saber se
aqueles versos a tocariam.
Poucas horas depois de ter
encomendado essa última tradução, Ana tocou minha campainha. Estava séria; não
quis entrar. De onde estava, nitidamente incomodada, disse-me:
- Não é difícil juntar as peças, Maurício. Eu
conheço até as séries a que você assiste, de tão finas que são essas drogas
dessas paredes. Então é óbvio que você acha que sabe tudo sobre o meu
casamento. A gente briga como qualquer outro casal e o problema não é seu.
Pedir uma tradução de uma música do U2 só para que eu traduza essa parte... – Ela pega um papel e lê. – “Você diz que quando ele te bate / Você não se
importa / Porque quando ele te machuca / Você se sente viva” foi invasivo e
constrangedor. O Alfredo tem seus defeitos, mas os reconhece; você não tem
ideia do quanto eu fico feliz quando vejo seu arrependimento sincero. Algum
dia, esse aspecto dele vai dominar os outros e nossa vida vai mudar.
- Não pretendi ser intrometido. – Eu respondi
mentindo e envergonhado com a arrogância que ela via em mim.
- Mas é só o que você foi. De nossa parte,
vamos tentar não te incomodar com nossas conversas. Da sua, por favor, finja
que a gente não existe. – Então me deu as costas e bateu sua porta.
Então dá para querer ajudar e
ser arrogante ao mesmo tempo. Não vou esconder que me senti bem comigo mesmo
enquanto pensava nas formas de ajudá-la a ver que poderia ter uma vida melhor. Mas
fiz de mim o mensageiro errado para a mensagem certa, e ela, atenta a mim e não
ao que tentei dizer, seguirá confundindo alívio e felicidade. Não vendo em Ana
uma mulher desejável, agora acredito que me apiedei dela por talvez enxergar em
seus tropeços um pouco dos meus; e a intromissão é infinitamente mais simples
do que a autocrítica.
Gostei! Mas quero que vc melhore, então, la vai: a amarração entre o tema principal e alguns detalhes ilustrativos podem melhorar! Bjo!
ResponderExcluirDepois da sua (boa) crítica, reli o texto. Não enxerguei más costuras, você vai ter que detalhar mais o que a incomodou. Mas, a partir do momento em que o Maurício busca intervir da vida da Ana, o texto piora e eu não consegui contornar isso. O último parágrafo cai num didatismo lascado. Mas o texto fica. Para servir de lição, no mínimo.
ExcluirPra mim, foi como um "soco no estômago"! Já passei por algo semelhante e, como vc, tive que aprender. Lembrei da frase de Chico Xavier: "Permito a todos serem como quiserem, e a mim, como devo ser." :)
ResponderExcluirObrigado por seu tempo e comentário, La. Volte sempre!
ExcluirSensacional! A arrogância de quem muitas vezes ajuda e a autocrítica sempre. Belo desfecho! Texto muito divertido, bem escrito e com ótima moral. Sucesso com o blog! abraço, Augusto.
ResponderExcluirObrigado, Augusto! Esses monstros são conhecidos de todos nós mesmo. Volte sempre!
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